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“Acuse-os do que você faz”: as contradições de José Medeiros na corrida ao Senado

Por: Maria Eduarda Sá

A tumultuada campanha ao Senado em Mato Grosso vem expondo contradições no comportamento de alguns candidatos. No caso de José Medeiros (PL), críticas dirigidas à adversária Janaína Riva (MDB) acabam encontrando paralelo em episódios relacionados ao próprio candidato.

A estratégia lembra uma frase frequentemente atribuída a Maquiavel: “Acuse seus inimigos daquilo que você faz, chame-os daquilo que você é.” A ideia é conhecida por descrever uma estratégia de deslocar para o adversário uma prática ou posição que também pode ser associada a quem faz a acusação.

Na maior parte dos casos analisados pelo DCO, o alvo de Medeiros é Janaína Riva. E não faltam exemplos dessa estratégia nas redes sociais.

Um dos principais ataques feitos pelo candidato é a tentativa de associar Janaína ao campo da esquerda. Perfis que apoiam Medeiros passaram a propagar a tese de que a deputada teria pedido voto casado com Carlos Fávaro (PSD), candidato que foi ministro da Agricultura no governo Lula.

Medeiros também incentiva a associação de Janaína ao eleitorado de esquerda, inclusive com o uso do termo “melancia”. A estratégia, porém, ganha outro contorno quando se observa que o próprio Medeiros elaborou e está divulgando conteúdo patrocinado direcionado a eleitores de Fávaro, pedindo o segundo voto.

O conteúdo foi veiculado como anúncio patrocinado no formato conhecido como dark post, publicidade que é exibida para públicos específicos sem necessariamente aparecer na grade pública de publicações do perfil. 

Relação com ministros

Outro eixo de ataque utilizado por Medeiros envolve o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

O candidato afirma que Janaína não teria “coragem” de apoiar o impeachment de Alexandre de Moraes e insiste na crítica mesmo diante de declarações anteriores da deputada sobre o assunto.

Janaína já afirmou: “Eu votaria favorável porque é o mecanismo que nós temos de fazer uma investigação dentro do Senado.” Em outra ocasião, ao defender a análise dos pedidos contra ministros do STF, declarou: “Se tem indício, tem que investigar. Se tem crime, tem que pautar o impeachment.”

Ao mesmo tempo em que questiona a posição de Janaína, Medeiros mantém uma relação política próxima com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), responsável pela condução da pauta da Casa.

A relação entre os dois é pública. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, Alcolumbre chama Medeiros de “irmão” e “amigo de todas as lutas” e afirma que o candidato o ajudou em diferentes momentos.

A proximidade ganhou ainda mais atenção porque a esposa de Medeiros, Ruth Shizue Yamamoto Medeiros, está cedida à estrutura do Senado desde 2019 e atualmente exerce função na Presidência da Casa com salário de quase R$20 mil.

 Passado político 

Medeiros também utiliza o posicionamento político de Janaína como argumento para criticar a aliança entre PL e MDB.

A crítica, porém, contrasta com a própria trajetória política do candidato. Na eleição de 2010, Medeiros concorreu ao Senado pelo PPS e integrou a chapa de Pedro Taques, sendo eleito primeiro suplente. Registros da época também mostram sua participação política ao lado do grupo de Percival Muniz.

Na atual campanha, Medeiros critica Janaína por sua suposta proximidade com o centro e a esquerda, enquanto sua trajetória partidária inclui justamente uma passagem pelo PPS antes de sua posterior migração para outras legendas.

A própria Janaína já lembrou publicamente que Medeiros havia buscado seu apoio em eleições anteriores e utilizado sua imagem em material de campanha ao lado de Jair Bolsonaro.

É nesse contexto que a campanha ao Senado em Mato Grosso vai ganhando contornos cada vez mais duros: acusações contra adversários, respostas, vídeos patrocinados e episódios que colocam em confronto discursos atuais e posições anteriores.

No fim, a frase atribuída a Maquiavel parece ganhar uma versão eleitoral própria: acusar o adversário pode ser uma estratégia, mas também pode abrir espaço para que o próprio passado e condutas do acusador seja colocado sob os holofotes. E Medeiros não tem sobrevivido bem a isso. 

E, nesta eleição, o maior desafio de Medeiros pode não estar apenas nos adversários que escolheu atacar, mas nas contradições que os ataques acabam trazendo de volta para o centro do debate. 

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