Às vésperas das eleições, o governo federal surpreendeu a população brasileira com o anúncio de um pacote de medidas com foco no crescente endividamento do país. Esse anúncio inclui a proibição das apostas esportivas, conhecidas popularmente como “bets”, e o lançamento do programa de renegociação de dívidas denominado “Desenrola 3.0”.
Analistas políticos, como Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, classificam essas estratégias como tendo um “caráter eleitoreiro”. “Ainda que haja benefícios associados, a velocidade e a forma como essas ações estão sendo implementadas beiram o oportunismo eleitoral”, argumenta Consentino, chamando a atenção para a seriedade das questões em pauta.
A partir do dia 6 de outubro, logo após as eleições, as apostas em jogos de azar nas casas de apostas serão banidas. Essa decisão, que ocorre a menos de uma semana do primeiro turno das eleições, é analisada criticamente por especialistas que vêem nela uma tentativa de atender ao apelo popular antes da votação.
Porém, a proibição das bets não é vista apenas como uma questão financeira. O economista Sergio Vale, da MB Associados, destaca que as apostas impulsionam um risco significativamente maior de inadimplência, com impactos diretos nas finanças pessoais de muitos brasileiros. Um estudo da Stone aponta que o risco de inadimplência em dívidas de cartão de crédito pode aumentar em até 40% para os apostadores.
Além disso, o Ministério da Saúde reportou um aumento de 140% na procura por tratamento de dependências relacionados a jogos online no Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo dos últimos cinco anos, revelando uma emergência de saúde pública que pede atenção. Rafael Favetti, da Fatto Inteligência Política, enfatiza a grave situação da ludopatia no Brasil como um elemento emblemático das dificuldades sociais enfrentadas.
Tatiana Pinheiro, pesquisadora da FGV EESP, ressalta que o pacote do governo, que tem como meta injetar aproximadamente R$ 271 bilhões na economia em 2026, é um movimento já esperado no atual contexto econômico. Este valor inclui medidas como o aumento do Bolsa Família e subsídios a programas existentes, porém, cada ação possui custos que repercutem nos cofres públicos, somando R$ 15 bilhões para o Desenrola 3.0.
Apesar da preocupação com a inadimplência recorde, que não apresentou melhoria após a etapa anterior do Desenrola, há um consenso entre analistas de que as medidas são de natureza superficial. Sergio Vale acrescenta que, embora tragam um alívio imediato, não abordam problemas estruturais mais profundos como taxas de juros elevadas, queda na renda familiar e aumento nos preços dos alimentos.
Os especialistas criticam a apressada implementação das medidas, argumentando que ações como essa podem criar um clima de instabilidade. Medidas que são aplicadas sem um planejamento adequado podem desincentivar investimentos tanto internos quanto externos, aumentando a insegurança jurídica no país. Leandro Consentino destaca que a velocidade da implementação sem o devido diálogo com o setor privado e legisladores pode causar problemas a longo prazo.
Tatiana Pinheiro complementa essa análise, observando que o temor de mudanças constantes nas regras do mercado pode levar empresários a hesitarem em investir, já que a previsibilidade é um fator essencial para o crescimento econômico.
O sentimento de urgência por parte do governo é evidente, levando a questionamentos sobre a falta de iniciativas anteriores em relação a um tema que afeta diretamente a saúde pública. A dúvida que persiste entre analistas é por que as restrições não foram abordadas de maneira mais proativa antes dessa corrida eleitoral.
Com um cenário econômico desafiador e a necessidade de medidas que tragam sinceridade e estabilidade, o governo parece estar, conforme analistas, utilizando uma abordagem que prioriza sua imagem pública em meio a um contexto eleitoral intenso. O problema não é apenas a natureza das medidas, mas a maneira como elas são apresentadas ao público, desenvolvidas de forma aparentemente apressada e sem a eficiência desejada.
Em suma, o caráter eleitoral das decisões e a preocupação com a eficácia e a implementação responsável dessas políticas revela tanto uma estratégia de governança quanto a urgência de uma solução real e sustentável para as dificuldades enfrentadas pela população.

