Morreu nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, o renomado jornalista Zuenir Ventura, aos 95 anos. O Centro de Estudos e Estudos de Ciências da Academia Brasileira de Letras (ABL) informou que ele faleceu devido a complicações de pneumonia. O corpo de Ventura será velado na nova sede da ABL, localizada no Centro do Rio de Janeiro, e seu sepultamento ocorrerá no mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista.
Zuenir Ventura deixa um legado indelével para o jornalismo nacional. Em sua última coluna no jornal O GLOBO, ele refletiu sobre as dificuldades da pandemia, questões de racismo e violência no Brasil contemporâneo, demonstrando a persistente relevância de suas análises e críticas.
Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, Ventura era filho de José Ventura, um pintor, e de Herina de Araújo, uma dona de casa. A família mudou-se para Nova Friburgo quando ele tinha apenas 11 anos. Desde jovem, Zuenir tentou equilibrar os estudos com trabalhos informais, onde ajudou seu pai e, com apenas 20 anos, fez a mudança para o Rio de Janeiro para estudar Letras Neolatinas na então Universidade do Brasil, hoje UFRJ.
Entre suas obras mais influentes, destaca-se o livro “1968: O Ano que Não Terminou”, publicado em 1988. Este livro analisa um dos anos mais conturbados do regime militar, traçando um panorama desde a festa de réveillon na casa de Heloísa Buarque de Hollanda até a decretação do AI-5. Essa obra não apenas capturou a tumultuada atmosfera da época, mas também inspirou a minissérie da TV Globo, “Os Anos Rebeldes”.
Em “Cidade Partida”, publicado em 1994, Ventura explora as profundas divisões sociais do Rio de Janeiro após a chacina de Vigário Geral, onde 21 pessoas foram mortas. Ele visitou a comunidade por dez meses, fazendo uma análise crítica das desigualdades sociais que persistem na cidade, despertando o diálogo sobre violência e inclusão social.
Outro marco em sua carreira foi o acompanhamento do caso de Chico Mendes, que resultou em uma série de reportagens que venceram os prêmios Esso e Vladmir Herzog em 1989. As reportagens foram mais tarde transformadas no livro “Chico Mendes: Crime e Castigo”, publicado em 2003.
Ventura também teve uma longa e respeitável carreira acadêmica, lecionando na Escola de Comunicação da UFRJ e na Escola Superior de Desenho Industrial. Seu impacto no jornalismo foi reconhecido com diversos prêmios, como o Prêmio Faz Diferença, que recebeu em 2022, e o título de “jornalista do ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros em 2010.
Além de seu papel como jornalista, ele foi um membro ativo da ABL desde sua eleição em 2014, ocupando a cadeira deixada por Ariano Suassuna. No dia de sua posse, Zuenir destacou a importância do papel do escritor e do professor na transformação social e como os desafios contemporâneos moldam a narrativa nacional.
Zuenir Ventura não apenas registrou os fatos, mas também questionou e provocou mudanças. Sua obra abrange debates sobre direitos humanos, ambientalismo e a luta por justiça social. Com uma perspectiva crítica, ele abordou temas como desigualdade, racismo e a violência urbana com uma sensibilidade rara, o que fez dele uma voz respeitada e ouvida, mesmo em tempos difíceis para a liberdade de expressão.
O jornalista deixou a esposa, Mary Ventura, e dois filhos, Mauro e Elisa, além de um legado que continuará a inspirar gerações de jornalistas e pensadores críticos no Brasil. A morte de Zuenir Ventura representa uma perda significativa para a profissão, mas seu impacto na sociedade e na história do Brasil permanecerá vivo através de suas obras e das lições que compartilhou ao longo de sua vida.