Criado em 1969 para unir crianças de diferentes classes sociais, o Parque Mutirama, localizado em Goiânia, passou por transformações significativas ao longo dos anos, que comprometem sua função social. Uma dissertação de mestrado da Universidade Federal de Goiás (UFG) detalha como essas mudanças dificultaram o acesso, especialmente para famílias de baixa renda. O estudo, realizado por Lilliane Braga Arruda, traz à tona questões essenciais sobre o espaço, que reabriu suas portas no último dia 10 após 18 meses de reformas.
Na reabertura, o parque recuperou 22 atrações e comemorou a presença de 5.567 visitantes no primeiro dia. Contudo, a pesquisa de Arruda, defendida em julho de 2018, revela que o Mutirama, inicialmente concebido como um espaço de lazer para todos, se tornou progressivamente menos acessível.
Um dos pilares da pesquisa foi uma análise dos objetivos de Iris Rezende, ex-prefeito de Goiânia e um dos responsáveis pela criação do parque. Ele enfatizou em depoimento que o Mutirama foi concebido não como uma fonte de receita, mas como um espaço para atender as crianças pobres. O desejo de Iris era promover a interação entre filhos de diferentes classes sociais, como uma forma de diminuir as divisões sociais desde a infância.
Ao longo dos anos, os ideais de inclusão e convivência entre crianças de diversas origens foram se perdendo. O parque, que tinha como objetivo principal proporcionar lazer para todas as crianças, começou a restringir o acesso, uma mudança que contraria a proposta original.
A dissertação da UFG analisa diversas mudanças ocorridas entre 2012 e 2017, que dificultaram o acesso às crianças de baixa renda. Nesse período, houve reformas que aumentaram a quantidade de brinquedos pagos, a retirada de áreas de brincadeiras gratuitas, e a implementação de fechamentos prolongados, além da introdução de cobrança de ingressos.
Segundo Arruda, embora as escolas ainda pudessem levar estudantes gratuitamente, as famílias agora enfrentam barreiras financeiras para visitar o parque em dias comuns. A lógica da educação inclusive era uma tentativa de manter acessível a diversão, mas as condições reais impuseram um paradoxo de exclusão.
Recentemente, em novembro de 2024, o Mutirama foi declarado patrimônio cultural de Goiânia, através da Lei Municipal nº 11.268. Essa nova classificação visa proteger não apenas a estrutura física do parque, mas também sua história e importância social. No entanto, o reconhecimento cultural não garante automaticamente o acesso igualitário.
Desde sua reabertura, o Mutirama voltou a funcionar, mas há planos para a cobrança de ingressos nos fins de semana a partir de 2027. Enquanto estudantes e famílias de baixa renda podem continuar a frequentar o local durante a semana, o futuro ainda é incerto para quem depende do acesso gratuito em períodos mais movimentados.
Desde sua fundação até o presente, o Mutirama vivenciou períodos de grandes mudanças que refletiram não apenas as dinâmicas administrativas, mas também as transformações sociais em Goiânia. A pesquisa da UFG ressalta a importância de um espaço de lazer acessível e inclusivo, e a necessidade de reavaliar as práticas atuais que contradizem essa missão.
Com a reabertura do parque, surge a esperança de que ele retome sua essência inicial e possa, de fato, ser um lugar onde todas as crianças, independentemente de sua classe socioeconômica, possam brincar juntas, fortalecendo laços sociais.

