Antes mesmo de sentirem os efeitos diretos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, as indústrias brasileiras de arroz já estavam convivendo com sérios prejuízos em decorrência das tensões comerciais que aumentam a instabilidade do mercado.
As empresas do setor passaram a enfrentar a interrupção de suas exportações para Cuba, consequência do endurecimento das sanções americanas, o que levou muitos a acumular estoques excessivos. Além disso, o mercado doméstico está em um estado de depressão, onde os preços do arroz estão ficando abaixo do custo de produção, tornando as margens ainda mais apertadas. Essa situação foi exposta por empresários da indústria, que relataram como essas dificuldades têm afetado seu planejamento financeiro em um momento crítico.
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), a tarifa de 37,5% imposta pelos Estados Unidos poderá causar perdas anuais que podem chegar a US$ 25 milhões. Este montante representa uma parte significativa das finanças da indústria, dado que os EUA correspondem a 19% do valor total exportado de arroz branco brasileiro, um produto considerado de maior valor agregado.
A Abiarroz tem defendido a necessidade de uma solução negociada entre os dois países para evitar que o setor seja ainda mais prejudicado neste cenário conturbado.
Adalberto Pegorer, sócio-diretor da São João Alimentos, revelou o impacto direto que as restrições comerciais impuseram à empresa. Com cerca de 130 a 140 contêineres de arroz prontos para embarque destinado a Cuba, a empresa se viu obrigada a cancelar contratos quando compradores espanhóis cancelaram seus pedidos devido à instabilidade financeira imposta pelas novas regras.
O arroz havia sido cuidadosamente desenvolvido para o mercado cubano, e sua realocação para o varejo brasileiro não é uma tarefa simples, resultando em altos custos de reprocessamento e perda de embalagens. Pegorer expressou preocupação que o arroz possa ficar estocado por um longo período, o que pode comprometer sua qualidade e levar a um aumento significativo dos prejuízos.
Apesar das exportações para os Estados Unidos representarem uma pequena parte do desempenho geral da empresa, Pegorer acredita que a tarifa de 37,5% praticamente inviabiliza novas oportunidades de negócios com o mercado americano, além de impactar a percepção do consumidor.
Antônio Pegorer, diretor da Guacira Alimentos, reforçou a incerteza no mercado e como a guerra comercial afeta todos os setores da indústria, mesmo na ausência de uma exposição significativa ao mercado dos EUA. A falta de previsibilidade nas taxas está gerando um ambiente de cautela, dificultando o planejamento a longo prazo.
A baixa rentabilidade do arroz no mercado interno é uma das questões mais críticas a serem resolvidas. Depois de atingir um pico de preço de R$ 127 por saca no final de 2022, o valor desabou para aproximadamente R$ 50 e agora se recupera lentamente, ainda assim, insuficiente para cobrir o custo de produção. Pegorer enfatiza a dificuldade em repassar os custos ao varejo.
Outro desafio significativo que os empresários destacam é o crescente poder de negociação das grandes redes supermercadistas. A concentração do varejo tem dificultado reajustes de preços, assim como aumentado os custos logísticos, especialmente em áreas metropolitanas como a Grande São Paulo, onde as restrições de circulação exigem entregas fracionadas.
Antônio Pegorer conclui que perder volume em um mercado como São Paulo significa perder o principal cliente, um fator crítico para a sustentabilidade da empresa.
Apesar de todos os desafios, os empresários têm esperança de que a próxima safra seja menor, reflexo do aumento dos custos de produção e crédito. Uma redução na oferta poderia eventualmente ajudar a recuperar parte dos preços pagos ao produtor, considerados insustentáveis para vários segmentos da cadeia produtiva atualmente.