Foram três blocos de debate razoavelmente civilizados, mas marcados por confrontos diretos e intensos entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nos momentos finais, ambos os candidatos abriram a caixa de ferramentas e apresentaram suas melhores armas retóricas, trazendo à tona referências ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e outros personagens da política. Essa dinâmica acentuou a polarização que se tornou característica da campanha para o segundo turno.
Com regras mais rígidas estabelecidas para o debate, era de se esperar que os candidatos abordassem temas relevantes. De fato, essa expectativa se confirmou com a discussão de problemas significativos que afligem o eleitorado e o país, incluindo o custo de vida, obras de infraestrutura e as políticas fiscais assistenciais, como a correção do salário mínimo, aposentadorias e pensões. No entanto, a complexidade de temas como reforma tributária e o novo marco legal do saneamento podem ter sido nebulosos para o eleitorado não familiarizado com essas questões.
O embate trouxe à tona momentos tensos, como quando Flávio, irritado, ganhou o direito de resposta após ser chamado de “miliciano” por Lula. Durante sua rebatida, Flávio adotou um discurso mais moderado, falando sobre governadores aliados eleitos e os problemas locais, como as enchentes no Rio Grande do Sul e a falta de saneamento em Belém, tentando escapar da armadilha retórica criada pelo adversário.
Por outro lado, Lula se apegou a uma estratégia conhecida, relembrando as conquistas sociais dos governos do PT desde 2003. Além disso, ele buscou constranger Flávio ao ressaltar os pontos fracos da gestão Jair Bolsonaro, principalmente em relação ao enfrentamento da pandemia e as crises sociais resultantes.
O clima esquentou ainda mais quando Lula se queixou da menção de Flávio sobre os “nove dedos”. O petista, ao contrário de se deixar abalar, trouxe à tona sua própria história de vida, envolvendo um acidente de trabalho que sofreu na infância, buscando criar uma conexão emocional com o eleitor que pode ter passado por experiências semelhantes.
O debate também viu momentos de desconforto, como quando Lula se referiu à triste morte da menina Ana Clara, uma vítima de um disparo acidental. Flávio, ao tentar se posicionar, escorregou ao referir-se à mãe da criança pelo nome da filha, o que evidenciou a tensão emocional do momento.
O encerramento da discussão foi marcado por uma intensa troca de acusações. As questões sobre a batalha para abertura de sigilos, que já haviam sido debatidas anteriormente, voltaram à tona. Contudo, o eleitor ainda permanece sem resposta clara sobre como essas disputas afetarão o combate à corrupção e as práticas de lobby dentro das instituições políticas.
À medida que o relógio avançava para quase meia-noite, a expectativa dos telespectadores era alta, mas a sensação era de que, apesar da melhora no clima do debate em relação aos episódios anteriores, muito ainda precisava ser discutido para que a população visse perspectiva de melhoria nos próximos quatro anos. O futuro ainda é incerto e repleto de desafios, e o debate deixou claro que as soluções para os problemas do país e para a vida do cidadão têm que ser debatidas com mais profundidade.

