Entre fevereiro de 2024 e dezembro de 2025, a lobista Roberta Luchsinger, atualmente sob investigação da Polícia Federal (PF) por suposto tráfico de influência, transferiu a quantia impressionante de R$ 1.506.655,00 para a conta de seu motorista, Ulisses Barbosa Viana Junior. Este esquema envolveu 32 repasses ao longo de 17 dos 23 meses do período investigado, resultando em uma média de R$ 88.626,00 por transferência. As transações indicam uma rede complexa de movimentação financeira que levanta sérias questões sobre a legalidade e a finalidade desses valores.
De acordo com uma planilha produzida pela PF, que contém detalhes das transferências, além dos depósitos em conta, Ulisses recebeu montantes significativos também em espécie. Um exemplo notável ocorreu em 25 de junho de 2025, quando o motorista retirou R$ 300 mil em dinheiro vivo de Roberta, que foram divididos em dois pagamentos: R$ 100 mil e R$ 200 mil, ambos utilizados para efetuar outros pagamentos.
Particularmente revelador é o fato de que ao menos R$ 50 mil desses recursos foram destinados à Vulcano Viagens, uma agência que Roberta e Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha, utilizaram para a emissão de passagens. Em março de 2026, a defesa da lobista afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que os repasses para a Vulcano ocorreram apenas até junho de 2024.
A PF investiga se os R$ 641 mil pagos à Vulcano tinham como intenção financiar as viagens de Lulinha. Esses recursos supostamente surgiram de pagamentos realizados por Antônio Carlos Camilo, o “Careca do INSS”, que está no centro de investigações sobre fraudes contra aposentados.
Os registros obtidos pelos investigadores mostram um padrão de pagamentos em dinheiro vivo entre Roberta e Ulisses. Em uma conversa de novembro de 2024, a lobista pede ao motorista para “deixar a grana no Fábio”, referindo-se a Lulinha, o que destaca a proximidade entre os três. “Cadê o dinheiro? Tem que levar lá no Fábio”, questiona Roberta, e Ulisses responde que “o dinheiro está no porta-malas do Volvo”, fazendo alusão a um carro de sua patroa.
Quando contatada, a defesa de Lulinha negou que ele tenha recebido qualquer quantia das transferências mencionadas. O advogado Marco Aurélio Carvalho afirmou que “Fábio Luís da Silva pode afirmar de forma categórica que não foi beneficiário de um recurso sequer das referidas transferências”, reforçando que seu sigilo bancário foi quebrado, evidenciando a falta de qualquer origem ilícita.
A TTW, empresa que Roberta utilizou para organizar uma viagem de luxo com Lulinha à Escandinávia — que custou mais de R$ 2 milhões —, destaca ainda mais as interações entre os envolvidos nesta trama. Essa viagem, que incluiu a família de Lulinha e também as filhas da lobista, reflete as questões de privilégio e influência que permeiam as relações no círculo do poder.
A situação não é apenas uma questão de movimentação financeira, mas levanta várias implicações sobre corrupção e tráfico de influência, especialmente no que se refere ao contrato entre a Unigel e a Petrobras, que foi classificado como prejudicial para a empresa estatal. A PF também continua a investigar a atuação de Roberta e Lulinha em outras fraudes, como as ligadas ao setor de canabidiol.
No contexto das eleições, a situação representa um risco para figuras políticas próximas ao governo, reforçando a tensão entre partidos e a necessidade de maior transparência e regulamentação nas práticas de lobby. A investigação em andamento poderá trazer à tona novas revelações e, eventualmente, mudanças nas dinâmicas políticas do país.

